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Num volte-face, quando eu puder, viro menina-mulher.

domingo, 10 de abril de 2011

Alberto Eugénio Soares (cap. XXIV- Do não saber)

    - Reparai, reparai! Aí vem ele outra vez!
    Pronto, estava dado o mote. Era assim já há alguns dias. Zé Alegrete, esbaforido, descia a colina a chispar, montado na sua velha pasteleira, roda 28. Vinha, derrapante, monte abaixo, de peitos ao café.
   Num misto de risada ébria e cortinas de crochet industrial, lá se empilhavam, em pirâmide, as caratonhas risonhas e irrequietas. Uma verdadeira montra expectante! Um garoto trepa às carrachuchas do pai e um outro tenta espreitar por entre a multidão de gigantones barulhentos. Alguém ao gesticular atira o castelo de garrafinhas de Favaios, alicerçado pela rodada matinal, ao chão. Os cacos não distraem ninguém e mal se ouvem, previsivelmente. Bendita algazarra!
   - Leva o cu á'rder! - Grita um dos bêbedos, histérico. Gargalham todos, protegidos atrás da vidraça.
    Num salto, um dos tontos sai porta fora agitando um casaco vermelho e exclama:
   - Toiro, toiro, toiro! - Faz uma cambalhota trapalhona e escapa por escassos milímetros a uma colhida violenta. Zé vinha com o trapio e a ligeireza dos mais nobres quando saem do curro. O pateta levanta-se, ajudado por uma vizinha que vinha ao pão. A dama tem um totó amarelo no topo da cabecinha e umas chinelas de quarto felpudas. O cavalheiro sacode a farpela, cheia de pó, e recolhe ao café ainda meio abananado. As pantufas ficaram completamente empoeiradas, também.
    - O homem vem louco, porra! Nunca parava! Se eu não me desviava...
    - Mamavas'as! - Intervém um outro bobo, provocando o grand finale.
   Ainda hoje me consome, aquele homem... Não me dá paz de espírito, a criatura! É porque sou caçapo, dizem. Sou dos novos, daqueles que ainda não sabem que a curiosidade tem um tempo próprio. Que as respostas chegam com o vagar da idade e que é preciso saber curiosar.
   Não, não me venham cá com histórias! Já passou o tempo, já não sou gaiato,  mas as minhas verdades tardam. E lembro-me muitas vezes desta semana, do sprint arriscado do Zé pela manhã. De ter de batalhar pelo meu lugar privilegiado, às cavalitas do meu pai.  Do reboliço dos gigantes embriagados.
   Na altura ninguém me contava onde é que ele ia. Ainda me cutucavam dizendo que "a curiosidade matou o gato". Bem, não matou, mas ainda aqui está, com forças e vigores de nova. Alimentando-se das inseguranças, da fogueira dos desamores, da frustração dos inteligentes, de tudo o que corre menos bem, do que corre pior, do fiasco e do pior é impossível, do bater no fundo, do fim de linha e do grande 31, dos apuros, dos sarilhos e da morte deste artista. A dúvida é pior que a febre porque não tem melhoria, não tem sequer a esperança na oscilação. Pelo menos não para os que têm miolos, que há pra'í burros ao engano. Não saber é corrosivo e nós levamos a vida assim. Não admira, portanto, que acabemos todos mortos. 

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